Uma vista paradisíaca em Mikonos

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Ao chegarmos lá em cima, foi surpreendente. Mantendo a tradição de Mikonos, a estalagem era toda branca, com corredores irregulares e paredes tortas e cada um de nós se alojou em quartos separados. No meu, deixei apenas minha mochila e fui descobrir onde era a varanda. Que deslumbre! Que vista magnífica! O vento amenizava o calor e, lá de cima, mal se via a estrada, somente o mar adiante.

A proprietária, cujo nome era Theodora, reuniu-nos e explicou que o ônibus até a cidade circulava de meia em meia hora durante todo o dia e rareava depois da meia-noite. Perguntei se havia algum tipo de perigo. Sua resposta foi categórica:

– Nenhum.

Ou seja, às quatro da tarde ou às duas e meia da manha era exatamente a mesma coisa. Decidi não fazer nada naquele dia. Afinal, estava de férias… Será??

Peguei meus papéis, sentei-me na varanda e fiz algumas anotações. Verifiquei meu dinheiro, peguei meu roteiro inicial e chequei o que já fizera o que tinha feito a mais, o que ainda faltava fazer e quais seriam meus próximos passos.

Pensei: Quem sabe fico aqui até a hora de voltar para casa ou, quem sabe, para sempre. Este lugar é uma maravilha…”

Fiz tudo o que precisava: escrevi cartões-postais e limpei minha máquina fotográfica. Nessa hora, vi, ao longe, o transatlântico que me trouxera zarpando com centenas de outras pessoas que, quem sabe, tinham estado exatamente no mesmo lugar onde estava naquele momento, mas que, por contingências da vida, tiveram de seguir seu rumo e voltavam às suas casas, sua escola, seu trabalho, amores, enfim, a suas vidas. Naquele momento, eu era a pessoa mais feliz do mundo.

O tempo foi passando, o sol baixando e o panorama se tornando cada vez mais deslumbrante. A visão que eu tinha de 180 graus, revelava montanhas absolutamente áridas, sem qualquer vegetação, fosse à direita ou à esquerda. Embora recortadas pelo seu sobe-e-desce natural, terminavam num mar um azul vibrante, que, nessa hora, adquiria uma coloração lá ao longo da faixa refletida pelo sol que se punha.

Eu tinha de agradecer a Zeus por ter me presenteado com esta vista especialmente preparada para os antigos deuses gregos apreciarem… Perdi a noção do número de fotos que tirei nesse lugar, pois a cada minuto a variação das cores oferecia um novo aspecto à sua perfeição. O dourado do mar aumentava proporcionalmente ao amarelo que coloria as montanhas e ao alaranjado do céu.

Foi, então, servida uma cerveja geladinha, acompanhada de um queijo branquinho e cheio de ervas, que, ao ser partido com o garfo, despedaçava-se inteiro. A varanda, nessa hora, estava cheia de gente e houve um burburinho geral entre as pessoas perguntando se alguém iria até a cidade.

As australianas queriam se aventurar, eu estava com preguiça. Só de pensar em subir as escadas de novo, desisti. Fui tomar um bom banho, comi algo na pensão mesmo e voltei à varanda para apreciar o luar. Senti uma brisa leve bater no meu rosto. Tinha a sensação de que o mundo girava em câmera lenta.

Não demorou muito e resolvi ir dormir, para acordar cedo e aproveitar bastante Mikonos no dia seguinte. Em meu quarto, havia mais duas camas que estavam ocupadas, mas não sabia de quem eram. Seus ocupantes deviam estar na cidade, uma vez que as pessoas que encontrei na pensão não pareciam der donas dos objetos esquisitos que vi sobre suas camas: uma algema, um colete cor-de-laranja e uma touca colorida com dois pompons na parte de trás, além de mochilas velhas e surradas, tudo muito estranho…

Acordei, como havia previsto, bem cedo, às sete horas.

Meus companheiros de quarto ainda dormiam e tentei não fazer barulho ao sair. O café da manha era bem simples: pão com queijo e café, que parecia não ter sido coado direito. Estava tão ruim, que pedi para trocar por chá. Depois, saí. Desci os degraus da escadaria e, cerca de cinco minutos depois, chegava o ônibus.