Carros: há marcas que trocaram de mãos e perderam a identidade

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Eu acredito que marcas têm DNA, um tipo de código que as faz ser como são. No caso das fabricantes de automóveis, é o que as faz construir carros com determinadas características de comportamento, desempenho, padrão de acabamento e posicionamento no mercado, entre outras coisas.

A história está cheia de exemplos de marcas que quiseram entrar em segmentos diferentes daqueles em que sempre atuaram e se deram mal porque, entre outras coisas não conseguiram se relacionar com o público desse novo segmento.

Há marcas que trocaram de mãos e perderam a identidade. E empresas que fracassaram ao relançar nomes, por não conquistarem o reconhecimento do mercado. Mas nem sempre o DNA é um problema. Pelo contrário: esse padrão de identidade é um valor das marcas e é com ele que as empresas cativam os consumidores.

As dificuldades acontecem quando se tenta modificar esse código ou, no caso das aquisições, ao transmitir essa herança para as novas gerações de produtos. Enquanto escrevo, consigo lembrar de vários casos nesse sentido.

Mas o que vou contar aqui é um exemplo com final feliz. Refiro-me à Bugatti, uma marca com DNA e muito bem definido, que existiu entre os anos de 1909 e 1963, saiu do mercado pouco tempo depois de seu fundador Ettore Bugatti morrer, foi relançada em 1987, comprada pelo Grupo VW em 1998, e atualmente goza dos mesmos carisma, prestígio e posicionamento do passado.

Obviamente, a melhor expressão das características de uma marca aparece em seus produtos. Porém, antes de falar do Bugatti 16.4 Veyron, que dirigi especialmente para este livro, quero contar um pouco do que vi e aprendi sobre a Bugatti, quando visitei a empresa em Molsheim, na França.

Penso que conhecer a fábrica e a história da marca foi fundamental para entender algumas características do Bugatti Veyron, um modelo que está para os super esportivos assim como um Rolls-Royce está para os carros de luxo.

Ettore Bugatti nasceu em Milão, Itália, em 1881, numa família que produziu artistas por gerações. Segundo o pesquisador inglès Barry Eagles field, o avò Giovanni Luigi Bugatti (1823-?), que foi um arquiteto reconhecido, seria descendente de Zanetto Bugatto (1458-1476), pintor de afrescos nas igrejas de Milão e retratista da família Sforza, que governou essa cidade italiana no século 15.

O pai de Ettore, Carlo Bugatti (1856-?), ficou famoso como designer de móveis. Tem peças expostas em importantes museus, entre eles o Museu D’Orsay, em Paris, e o Metropolitan, em Nova York. Por fim,Ettore teve um irmão chamado Rembrandt (1884-1916), que foi escultor.Por vontade do pai, Ettore também teria se tornado artista, enquanto seu irmão Rembrandt, apesar de homônimo do pintor holandês, deveria estudar engenharia.

Mas aconteceu justamente o contrário. Ettore chegou a ingressar na Academia de Artes de Milão, mas, por se achar menos talentoso que seu irmão, decidiu arranjar outra atividade. Foi trabalhar em uma metalúrgica que fazia bicicletas e peças para máquinas e ficou fascinado pela mecânica.

Aos 20 anos, o jovem Ettore construiu seu primeiro veículo, Type 2, que venceu o Grande Prêmio do Automóvel Club da França e teve os direitos de produção comprados pela empresa De Dietrich.

O projeto mais ambicioso de Ettore Bugatti, que ilustra bem o espírito que ele emprestou a sua fábrica, foi o Type 41, Royale. Com esse projeto, Bugatti quis – e conseguiu – fazer o melhor, o mais luxuoso e potente carro de todos os tempos. O Royale tinha motor 12.7 de oito cilindros com 300 Cv de potência e, sobre o radiador, portava como mascote a escultura de um elefante apoiado nas patas traseiras.